Criança suja, criança forte

Andar sujo ou brincar na terra parece tornar as crianças mais fortes enquanto que a excessiva higienização, como o abuso de antibióticos e produtos para o lar antibacterianos, está cada vez mais associada a uma saúde fragil e desordens imunológicas como alergias e doenças autoimunes.

 


Os bebés estão constantemente levando à boca tudo que vêem, não apenas os brinquedos mas objectos que encontram no chão ou até mesmo terra.

Uma vez que todos os comportamentos instintivos têm uma vantagem evolutiva (se assim não fosse não permaneceriam o longo de milhões de anos) existe forte possibilidade de que este comportamento seja útil à nossa sobrevivência como espécie. E, de facto, existem cada vez mais evidências que sugerem que comer terra faz bem à saúde.

Em estudos sobre higiene, investigadores concluíram que organismos como os milhões de bactérias, vírus e especialmente os vermes que entram no nosso corpo juntamente com a sujeira estimulam o desenvolvimento de um sistema imunológico saudável. Vários estudos sugerem que os vermes podem ajudar a redireccionar o sistema imunológico que se encontra desnorteado e desenvolveu auto-imunidade, alergias ou asma.

Estes estudos juntamente com observações epidemiológicas parecem explicar porque é que as desordens imunológicas como esclerose múltipla, diabetes tipo 1, doenças inflamatória do intestino, asma e alergias aumentaram significativamente em países desenvolvidos.

“O que a criança está a fazer quando coloca coisas na boca é permitir ao seu sistema imunológico explorar o seu entorno” diz Mary Ruebush, microbióloga e imunóloga no seu libro “Why dirt is Good”. “Isto serve para praticar as suas respostas imunológicas mas também desempenha um papel fundamental no treino das suas respostas imunes imaturas que é ignorado”.

Dr. Joel Weinstock, director de gastroenterologia e hepatologia do Tufts Medical Center em Boston, diz numa entrevista que o sistema imunológico à nascença é como um computador não programado que necessita instruções. Ele diz que “medidas publicas de higienização com da água e alimentos salvaram milhares de vidas mas elas também eliminaram o nosso contacto com organismos que são provavelmente bons para nós”. “Crianças que cresceram num ambiente ultra limpo não estarão expostas a organismos que ajudam a desenvolver circuitos reguladores imunológicos apropriados.”

Dr. Joel Weinstock e o Dr. David Elliott, gastroenterologista e imunologista da Universidade de Iowa, realizaram estudos que indicaram que vermes intestinais, eliminados de países desenvolvidos, são "provavelmente os mais responsáveis" na regulação do sistema imunológico. As infecções bacterianas e virais parecem influenciar o sistema imune da mesma forma mas sem a mesma força.

A maioria dos vermes são inofensivos, especialmente em pessoas bem nutridas, diz o Dr. Joel Weinstock. “Existem muito poucas doenças que se podem apanhar dos vermes. O ser humano está adaptado à presença da maioria deles”.

Em estudos em ratinhos, o Dr. Joel Weinstock e o Dr. David Elliott usaram vermes para prevenir e reverter doenças auto-imunes. Elliott disse que na Argentina, os investigadores descobriram que os pacientes com esclerose múltipla que foram infectados com o verme tiveram uma redução significativa dos sintomas por um período de quatro anos e meio.

Na Gambia, África, a erradicação dos vermes de algumas aldeias causou um aumento do número de crianças com reacções cutâneas alérgicas, segundo Dr. David Elliott. E vermes do porco que residem por pouco tempo no nosso intestino mostraram melhorar doenças intestinais como colite ulcerosa e doença de Crohn.

Como é que os vermes influenciam o sistema imunológico?
Dr. David Elliott explica que a regulação imunológica é mais complexa do que se julgava até agora. Imunologistas reconheceram agora um sistema de resposta quadruplo dos linfócitos T auxiliares (Th cells): Th1, Th2, Th 17 e células T reguladoras. “ Muitas doenças inflamatórias, como esclerose múltipla, doenaç de Crohn, colite ulcerosa e asma, são devido à actividade da Th 17. Se infectarmos um ratinho com vermes, o Th 17 diminui dramaticamente e a actividade das células T reguladoras é aumentada”

Ruebush, autora de "Why Dirt Is Good" diz que as bactérias estão por todo o lado e que a sua maioria não causam problemas, habitando normalmente o tubo digestivo produzindo nutrientes essenciais à vida. “Um ser humano carrega aproximadamente 90 triliões de micróbios. E o facto de contermos tanta variedade permite-nos estar saudáveis a maioria do tempo”.
Ruebush lamenta o actual fetiche por antibacterianos presentes em tantos produtos que transmitem uma falsa sensação de segurança e que podem ser responsáveis pelo crescente aumento de bactérias multirresistentes a antibióticos. “Água e sabão é tudo o que necessitamos para estar limpos”.

O Dr. Joel Weinstock vai ainda mais longe e diz que “devíamos permitir que as crianças brinquem descalças na terra e não lhes lavarmos as mãos quando se sentam à mesa.” Dr. Weinstock e o Dr. Elliott dizem que as crianças que crescem em quintas e estão frequentemente expostas a vermes dos animais são menos propensas a desenvolver alergias e doenças auto-imunes.

E, diz ele que, "deixem as vossas crianças ter dois cães e um gato" porque vai expô-las a vermes intestinais que ajudaram a que tenham um bom sistema imune.

 

Fonte: The New Your Times